
Memória Descritiva
Tal como foi dito no trabalho anterior, o objectivo deste trabalho passa pela construção de uma composição tipográfica baseada no heterónimo de Fernando Pessoa – no caso, Ricardo Reis. Na composição tipográfica é obrigatório inserir o nome do autor/heterónimo e enquadrar o trabalho numa folha A4.
O método é em muito similar ao do trabalho tipográfico da composição de Caeiro. Inicialmente, procurei reunir o maior número de informações possíveis sobre o heterónimo, organizando determinados aspectos identificativos com o tipo de letra a ser utilizado.
A Rage Italic foi a escolhida. Baseei-me em alguns aspectos para encontrar a que penso ser a letra adequada. A ataraxia ou ausência de preocupação no momento reflecte para uma fonte sem regras, livre, independente, de traçado espontâneo, curvo, sem a resistência da linha recta, sem preocupação; o desejo do nada aponta para o
mesmo desígnio, a letra esguia – Itálico, face a esta questão desempenha um papel fulcral -, fugidia; a celebração do momento, do agora revela uma forte personalidade – daí o seu traçado denso – e o querer da ocasião faz com que esta assuma preponderância visual.
A forma como a tipografia está disposta – em sequência descendente – compreende um paralelismo entre a tipografia e a imagem de fundo. Queria explicitar algo que se relacionasse com o efémero, mas que também fosse intenso.
Por isso, além do significado da cor (que abordarei no parágrafo seguinte), a imagem apresenta um mundo em que se destaca a tipografia, ou melhor, o verso tipográfico dividido em partes – Ser-me-ás suave á memória /lembrando-se assim / à beira rio – numa área pictórica que se relaciona com cada um, ou seja, “Ser-me-ás suave à memória” está inserida num espaço semi-nublado mas explicito, com diferentes cores; “lembrando-me assim” está composto, no fundo, por um conjunto de linhas que representam o passageiro, efémero, pela sensação de movimento que nos provocam; o “à beira rio” apresenta-se perfeitamente legível, ligado a um fundo de linhas onduladas, isto é, a tipografia é o presente, o momento de celebração e o fundo é o fugaz momento, estabelecendo definitivamente o paralelismo que falei acima.
A cor tem um papel muito importante e significativo no que diz respeito ao todo. O azul foi implicado neste trabalho pelo facto de ser uma cor fria o que diz respeito ao que para Ricardo Reis significa o amor, ou seja, uma gélida frieza, pelo calculado e pensado sentido que retira toda a espontaneidade ao mais simples gesto de ternura. Isto relaciona-se com tudo o que é Ricardo Reis na sua escrita, o aproveitar o momento presente de forma ávida. Mas também pelo facto de a sua escrita ter como base a o vocabulário enriquecido e erudito. Além da própria palavra rio que nos faz lembrar o azul.
O branco corresponde à ausência de luz, alívio da sensação de morte de choque emocional, ajudando a limpar e aclarar as emoções, os pensamentos e o espírito, outras das características do autor.
Ricardo Reis – Heterónimo de Fernando Pessoa
Vem sentar-te comigo, Lídia, á beira do rio
Ser-me-ás suave á memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã, triste e com flores no regaço.