Para compreender os meandros das suas obras ou, ainda mais, encetar uma análise fundamentada de alguma delas, é necessário tomar conhecimento de certos aspectos que influenciaram e marcaram a sua singularidade artística no decorrer do século XX.
Joan Miró i Ferrà nasceu em Barcelona, Espanha, a 20 de Abril de 1983. Desde cedo, Miró, decidiu dedicar-se à pintura num ambiente dominado pelas últimas tendências artísticas Francesas, que pôde ver directamente nas exposições cubistas e fauve da Galeria Dalmau de 1912. Estas influências, com as de Cézanne e Van Gogh, são as mais perceptíveis nas suas primeiras obras, entre 1915 e 1918, onde já se sente a sua inclinação para figuras e paisagens relacionadas com o mundo rural, baptizada pela crítica como peculiar pela minuciosa óptica descritiva com que trata os objectos e os personagens relacionados com o campo. Como já foi dito, as suas primeiras obras ligam-se às novas tendências da pintura moderna Francesa, – pós impressionismo, cubismo, fauvismo – presente em Barcelona na galeria de Josep Dalmat. Nord-Sud é um bom exemplo de contaminação fauvista de pincelada grossa e explosão de colorido. Também se nota a influência de Cézanne nos objectos que compõem a natureza-morta e a inclusão de rótulos no quadro procede das pinturas cubistas de Picasso, Georges Braque e Juan Gris.

Norte-Sul - 1917
No Retrato de V. Nubiola, a cor e o gesto agressivo de origem fauve fundem-se no tratamento espacial da natureza-morta sobre a mesa, mais relacionado com Cézanne e o cubismo.

Retrato de V. Nubiola - 1917
Em Siurana, a Povoação, a construção dos volumes através da cor, reforçada com uma pincelada escura, aproxima-nos das paisagens de Cézanne ou das que Picasso pintara na primeira década do século na povoação de Horta de Ebro, antes de iniciar a aventura Cubista.

Siurana, a Povoação - 1917
A Quinta (1921-1922), um ingénuo inventário transcendental e quase religioso da quinta da sua família em Montroig, culmina esta etapa.

A Quinta, Montroig, Barcelona - Paris - 1921-1922
Revela a sua relação íntima e mítica com a terra, o seu universo particular, base de toda a sua obra. A composição em faixas horizontais, tirada da pintura romântica catalã, assim como, o grafismo ingénuo e exacto de animais e objectos, proporcionam a chave da caligrafia pictórica mironiana, depurada nos anos seguintes pelo seu contacto com o surrealismo.
Em 1919, instala-se em Paris, onde conhece André Breton – escritor, poeta e teórico Francês do surrealismo – e um grupo de artistas ligados ao surrealismo, acabando por participar em exposições regulares a partir de 1935. Esta experiência surrealista possibilitou-lhe aproveitar o potencial que o movimento lhe oferecia ao legitimar o inconsciente e o sonho como material artístico, libertando a sua própria escrita pictórica. A transição da Paisagem Catalã (O caçador – 1923-24) para o Carnaval de Arlequim é um bom exemplo do seu desenvolvimento como pintor. Miró vê o imaginário e o inconsciente como um instrumento de medição pictórica, uma forma de representar no quadro a sua experiência vital e a sua memória. Na década de 30, fez cenários para ballet e tapeçarias que despertaram o seu interesse pela arte monumental e mural.

- Paisagem Catalã – O caçador – 1923-24
Dois planos de cor aludem ao céu e à terra; as letras no ângulo inferior direito referem-se à espinha de sardinha que ocupa a parte inferior da composição

Carnaval de Arlequim - 1924-25
Uma das grandes atracções da primeira exposição surrealista na Galerie Pierre de Paris foi esta obra, a primeira de Miró plenamente integrada na nova estética.
Miró trazia intuitivamente a visão despojada de preconceitos que os artistas das escolas fauvista e cubista, mediante a destruição dos valores tradicionais. Na sua pintura e desenhos, procurou criar meios de expressão metafórica, ou seja, descobrir signos que representassem conceitos da natureza num sentido poético e transcendental. Nesse aspecto, tinha muito em comum com dadaístas e surrealistas.

Interior Holandês I - 1928
Esta é uma pintura a partir de um quadro de um mestre antigo, – H. M. Sorgh – onde se realça a composição controlada e onde os personagens e motivos do original transformam-se em ideogramas figurativos.
Apesar da sua ligação ao surrealismo, não se pode considerar Miró um surrealista “ortodoxo” ou, pelo menos, não da mesma maneira de Ernst, Tanguy, Magritte ou Dalí. Aliás, a sua obra não pode ser enquadrada em nenhuma das grandes tendências ou movimentos da vanguarda histórica. Ao contrário dos surrealistas, o Espanhol, nunca pintou sonhos ou praticou diferentes variantes de escrita automática que os surrealistas usaram como principal arma para libertar o inconsciente.

Mgritte - Filho do Homem - 1928

Salvador Dalí - A Persistência da Memória
As privações económicas e os horrores da Guerra Civil Espanhola iriam influenciar a sua produção artística daí em diante, caracterizada por uma pintura atormentada e gestual cuja máxima expressão reflecte-se em o Ceifeiro, pintada para o pavilhão da Républica Espanhola na exposição de Paris de 1937.
Foi no início da Segunda Guerra Mundial que a sua carreira sofre um grande impacto ao expor vinte e três pequenas pinturas sobre papel molhado e enrugado genericamente intituladas Constelações. Estas pequenas composições inspiram-se no céu estrelado da Normandia, por pequenos pictogramas que cobrem por igual toda a superfície pintada, transformada assim num espaço topológico prolongado para além do formato e, simultaneamente, descobrindo e conquistando um novo conceito de espaço que antecipa boa parte da pintura não figurativa posterior a 1945. O céu estrelado realiza-se sobre papel molhado e enrugado, de forma que um emaranhado de linhas e pequenos ideogramas de cor, que aludem a pássaros, personagens alegóricas, estrelas e animais, activa uma superfície viva e texturada. Em 1941, o pintor representa a sua definitiva consagração internacional atingindo a sua maturidade artística.

Mulher rodeada por um voo de um pássaro - 1941
As estrelas representadas por dois triângulos contrapostos, e as sucessivas posições do pássaro envolvem as mulheres e invadem os bordos do quadro, criando um contexto expansivo que desdobra virtualmente os limites da pintura.
Em 1954, ganhou o Prémio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO, em Paris, ganhou o Prémio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra.
Joan Miró morreu em Palma de Maiorca, Espanha, a 25 de Dezembro de 1983.